Inspiration
No dia 29 de Novembro de 2025, dois jovens faleceram, afogados, por não conseguirem sair do veículo submerso. Isto não é um evento singular, aliás, em maio de 2025, também um grupo de quatro jovens entre 15 e 18 anos em Tavira, após a colisão com uma árvore, caíram ao rio onde todos acabaram por falecer. Após alguma pesquisa, confrontamo-nos com dados preocupantes: estudos científicos indicam que até 71% das vítimas em veículos submersos morrem por afogamento e não devido ao trauma do impacto. Isto significa que a grande maioria destas pessoas sobreviveu à queda do carro na água, mas morreu presa porque não conseguiu sair a tempo. Em Portugal, os despistes (incluem, não exclusivamente, quedas em rios/barragens) amontam para 33,9% dos acidentes, mas são responsáveis por 47,3% de todas as mortes na estrada. O despiste é a forma mais letal de acidente registada. A nível mundial, a submersão de veículos é responsável por até 10% de todos os afogamentos involuntários, é classificado como o tipo de acidente rodoviário de veículo único com a maior taxa de mortalidade. Além dos próprios acidentes em si, é relatado como o pânico telefónico: existe um fenómeno documentado em que as vítimas morrem afogadas enquanto ainda estão ao telefone com o 112, muitas vezes em chamadas que duram até 3 minutos, porque o sistema elétrico falha e a pressão da água impede a abertura das portas. A submersão de veículos representa um dos cenários de acidente mais catastróficos e letais no panorama da segurança rodoviária global. Embora constitua estatisticamente uma fração minoritária do total de acidentes de viação — estimando-se que represente entre 1% a 3% de todos os acidentes — a taxa de fatalidade associada é desproporcionalmente elevada, contribuindo para aproximadamente 10% de todos os afogamentos involuntários em nações desenvolvidas.1 A análise epidemiológica destes incidentes revela que o trauma físico resultante do impacto inicial (colisão com a água ou obstáculos prévios) raramente é a causa direta da morte; a vasta maioria das vítimas perece por afogamento devido à incapacidade de evacuar o veículo em tempo útil.4 O fenómeno da submersão veicular desafia os ocupantes com uma convergência hostil de fatores físicos, psicológicos e mecânicos. O ambiente muda radicalmente em segundos: a orientação espacial é perdida (especialmente em capotamentos ou submersões noturnas), a temperatura da água induz choque térmico fisiológico (Cold Shock Response) que incapacita a respiração controlada 6, e os sistemas elétricos convencionais do veículo colapsam rapidamente devido a curto-circuitos induzidos pela condutividade da água.8 Contudo, o obstáculo mais formidável é a pressão hidrostática, que atua sobre as portas do veículo, selando os ocupantes numa "tumba de vidro" assim que o nível da água exterior ultrapassa o nível do chão do carro.10 Para o projeto TecStorm 2026, a proposta de um sistema "anti-flood" automatizado não é apenas uma conveniência tecnológica, mas uma intervenção crítica de suporte à vida. A filosofia de design deve transitar da dependência da ação humana — que é falível sob pânico — para a autonomia determinística da máquina. Este relatório investiga profundamente as implicações físicas, a ciência dos materiais, a arquitetura de sensores e os protocolos de segurança necessários para concretizar tal sistema.
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What it does
A submersão veicular é um cenário de acidente de alta letalidade que, embora represente uma pequena fração dos sinistros rodoviários, é responsável por cerca de 10% dos afogamentos involuntários em nações desenvolvidas. O perigo reside na física: a apenas 60 centímetros de profundidade, a pressão diferencial da água bloqueia as portas do veículo, enquanto os sistemas elétricos entram em curto-circuito, inutilizando os vidros elétricos e deixando os ocupantes com uma janela de fuga crítica de apenas 60 a 90 segundos.
O S.A.V.E. (Sistema Anti-inundação de Veículos em Emergência) responde a esta falha sistémica eliminando totalmente o fator humano da equação de salvamento. Trata-se de um sistema de escape pneumático autónomo que utiliza uma arquitetura de sensores redundantes para detetar a imersão e retrair automaticamente os vidros laterais em menos de 1 segundo. Ao contrário das soluções atuais, o nosso sistema opera independentemente da bateria do veículo e garante a desobstrução da via de escape mesmo contra a pressão da água, com um custo de implementação para fabricantes estimado em cerca de 900€ por unidade, democratizando o acesso a uma tecnologia que tem o potencial real de salvar milhares de vidas por ano.
How we built it
Começámos por estudar em detalhe a porta do VW Polo IV como exemplo e o percurso do vidro, para perceber onde poderíamos criar um mecanismo que libertasse e retraísse o vidro de forma rápida e controlada. A partir daí dimensionámos três cilindros pneumáticos normalizados ISO 15552 (dois para quebrar os suportes do vidro e um para o puxar para dentro da porta), bem como o depósito de ar comprimido de 1 L, compressor automotivo e toda a linha de tubagem e válvulas necessárias para garantir vários ciclos de funcionamento. Em paralelo, desenhámos a arquitetura eletrónica com uma ECU baseada em STM32, sensores de água, IMUs redundantes e sensor de pressão, integrados num algoritmo que corre a 50 Hz e reconhece diferentes padrões de acidente em água, desde impacto direto a submersão lenta ou capotamento.
Challenges we ran into
Ao longo do desenvolvimento deparámo‑nos com desafios muito concretos que vieram diretamente dos pontos que listámos: logo à partida, tivemos de garantir que o sistema elétrico do S.A.V.E. é independente do resto do carro, para que continue operacional mesmo que a alimentação do veículo falhe após o impacto. Em termos de experiência do utilizador, percebemos que numa situação real de pânico a vítima não pode estar a procurar botões ou instruções, o que nos obrigou a desenhar um sistema totalmente automático, em que a decisão de abrir o vidro é tomada apenas pelo conjunto de sensores e algoritmo. A nossa ideia inicial de partir o vidro laminado revelou-se inadequada, uma vez que o vidro laminado mesmo fraturado nao consegue ser empurrado para fora da estrutura da porta do veículo (sustém a sua forma devido ao plástico PVB), o que nos levou a abandonar esse caminho e a reformular o conceito para retração pneumática. Quando passámos para esta solução, tentámos primeiro a abordagem de alargar a moldura da janela, algo que se tornou rapidamente insustentável e realista devido às restrições de espaço. Além disso, a pressão hidrostática da água dentro da porta revelou-se um fator crítico, porque aumenta o esforço necessário para fazer o vidro descer, obrigando-nos a recalcular forças e a ajustar o dimensionamento dos cilindros. Do lado do controlo, conceber o conjunto de sensores e o algoritmo foi um desafio à parte: tivemos de garantir que o sistema distingue de forma fiável cenários reais de submersão, impacto em água ou capotamento, de eventos comuns como chuva intensa, travagens bruscas ou salpicos na estrada, mantendo uma taxa de falsos positivos muito baixa. A inclinação do carro em acidente também complicou o problema, porque em certas configurações o vidro deixa de “cair” naturalmente e passa a exigir que o cilindro o puxe ativamente para criar a abertura necessária para evacuação. Finalmente, a existência de muitos tipos diferentes de reguladores de janela entre modelos de automóveis mostrou‑nos que a solução tinha de ser suficientemente flexível para se adaptar a arquiteturas variadas, o que aumentou a complexidade do design mas também o aproximou de um produto realista.
Accomplishments that we're proud of
Apesar destes obstáculos, conseguimos adaptar-nos rapidamente sempre que uma abordagem nova ao problema não funcionava, passando de um conceito de quebra do vidro, para um sistema de alargamento da moldura da janela, finalmente consolidando na solução do sistema de retração pneumática do vidro robusto e seguro, com coeficientes de segurança elevados e tempos de resposta da ordem das centenas de milissegundos. Conseguimos também levar para a frente um projeto com um nível de complexidade elevado, que integra mecânica, pneumática, eletrónica, e algoritmos, culminando numa arquitetura validada técnica e conceptualmente nos relatórios que fomos desenvolvendo e pesquisando. Ao longo deste processo, melhorámos bastante o nosso entendimento mútuo e a organização do trabalho em equipa, aprendendo a dividir tarefas, comunicar melhor entre áreas e tomar decisões rápidas com base em testes e dados.
What we learned
Aprendemos em detalhe como funciona o processo de inundação de um veículo e qual é o intervalo de tempo realmente disponível para permitir a evacuação segura, o que influenciou diretamente os requisitos de desempenho do sistema. Ganhámos também uma visão muito mais clara das diferentes estruturas mecânicas usadas na abertura e fecho dos vidros e das portas, percebendo como pequenas diferenças de geometria e mecanismo podem mudar completamente a integração do sistema. Do lado da engenharia, aprofundámos o funcionamento de sistemas pneumáticos em contexto automóvel, desde dimensionamento de cilindros e reservatórios até consumo de ar, ciclos por carga e requisitos de certificação. Ao mesmo tempo, percebemos a importância e a complexidade de desenvolver sistemas totalmente automáticos para situações de emergência, onde redundância de sensores, rejeição de falsos positivos e falha segura são tão ou mais importantes do que o próprio tempo de resposta. Por fim, ganhámos uma nova sensibilidade para as diferenças entre os vários tipos de vidros automóveis e as suas características específicas, entendendo como cada modelo de carro traz limitações próprias que têm de ser consideradas logo desde o início do design.
What's next for S.A.V.E. - Sistema Anti-inundação de Veículos em Emergência
O S.A.V.E. v2.3 está tecnicamente definido, mas a transição de um "design validado" para um produto industrializável exige melhorias críticas que pretendemos abordar na fase de mentoria. Identificámos quatro áreas onde o acompanhamento especializado é vital para reduzir o risco tecnológico e comercial:
Validação da Integridade Estrutural: Embora os nossos cálculos indiquem que os dois cilindros de 32mm geram os 1.126 N necessários para quebrar os suportes de retenção, precisamos de melhorar a nossa certeza sobre o impacto no chassis do veículo. Com a mentoria, tencionamos realizar simulações avançadas para garantir que esta força é aplicada sem causar deformações plásticas na porta ou partir o vidro de forma não planeada, validando a segurança estrutural do mecanismo de quebra.
Refinamento do Algoritmo de "Zero Falsos Positivos": O nosso objetivo é uma taxa de erro inferior a 0,1%. Para melhorar a robustez do algoritmo atual, pretendemos resolver cada situação de possível falsos positivos para distinguir, com precisão absoluta, cenários de "ruído" (como lavagens de alta pressão ou chuva intensa) de uma imersão real, algo que necessita de tempo e testes algo que a abordagem puramente teórica não consegue replicar perfeitamente.
Otimização do "Packaging" em Veículo Real: Precisamos de passar do desenho CAD para a física. O próximo passo é melhorar a integração espacial dos componentes — especificamente o depósito de 1,0L e o sistema de tubagens — dentro do volume restrito da porta de um veículo de teste. O objetivo é validar a facilidade de instalação e garantir que o mecanismo de retração funciona sob as vibrações e tolerâncias reais de um automóvel em movimento, e não apenas em ambiente estático.
Preparação para Certificação Industrial: Um produto de segurança só tem valor se for certificável. Pretendemos utilizar a mentoria para melhorar o nosso dossiê técnico, estruturando-o para cumprir os requisitos rigorosos identificados no relatório: a norma ECE R.107 (tempos de evacuação) , a diretiva PED 2014/68/EU (segurança do depósito de pressão) e a EN 61508 (segurança funcional do software). Este trabalho preparatório é essencial para apresentar o S.A.V.E. como um projeto realmente viável no mundo real.
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